O caráter do obreiro

 

O CARÁTER DO OBREIRO DIANTE

DO DESCRÉDITO DO PASTORADO

Entendemos por caráter, um conjunto de qualidades, boas ou más, que normalmente distinguem uma pessoa, um povo, tais como honestidade, honradez, formação moral.

A Filosofia, a Sociologia, a Teologia e até mesmo a genética, não conseguiram ainda responder totalmente as questões como: Por que as pessoas são como são? Elas já nascem com suas aptidões ou as desenvolvem no decorrer da vida? Alguns estudiosos supõem que o caráter e as características da personalidade são frutos do desenvolvimento, com base na experiencia de cada um, condicionadas pelo meio.

            A Bíblia não só admite como mostra claramente a intervenção divina na formação do caráter. João (o Batista) por exemplo, foi cheio do Espírito desde o ventre materno, (Lc 1. 15). Paulo, apóstolo entre os gentios, chega a declarar que Cristo o separou para tal missão, antes mesmo dele nascer, com o propósito de ser Cristo revelado, (Gl 1.15). O que dizer de Jeremias que o próprio Deus, respondendo aos seus questionamentos, diz: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações, Jr 1.5”. Quando Zaqueu recebeu Jesus em casa e o ouviu sobre a mudança que veio trazer ao perdido, se entregou a uma mudança de comportamento e teve o caráter trabalhado pelo salvador que disse: “Hoje houve salvação nesta casa…, Lc 19.9), etc.

          Contudo, não são somente as pessoas cristãs ou religiosas como dizemos, que desfrutam dessa graça de um caráter equilibrado. Por outro lado, existem religiosos em pleno desenvolvimento de caráter, o que acontece como ato subsequente à conversão.

O Espírito Santo de Deus é quem se ocupa na tarefa de transformar espiritualmente o cristão, à medida que as Sagradas Escrituras são observadas. É o que se entende ao ler 2 Co 3.18: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a gloria do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor”. O Dr. Russell Shedd discorre isto como santificação, da seguinte forma: 1. O que é? É a transformação na imagem de Cristo, (Cl 3.10); 2. Quando ocorre? Agora – “somos transformados, Rm 12.2”; 3. Como se dá? Pela contemplação da glória (vida, morte, ressurreição e pessoa de Cristo, Jo 17.24); 4. Qual o agente? O Espírito Santo. Isto me parece coerente.

            Obviamente, o cultivo do fruto do Espírito com seus vários aspectos é de grande valia ao nosso caráter, uma vez que, o cristão, ao se entregar sem reservas ao trabalhar do Espírito Santo, pode melhorar consideravelmente, a despeito do caráter básico de onde todos nós partimos.

            Davi, embora falho, entendeu que Deus pode e quer conduzir o homem por reta vereda neste mundo, afim de que, um dia, do outro lado da existência, em corpo glorificado, Deus mesmo lhe confira avanços consideráveis, com missões importantes no Seu Reino, Sl 23.3b e 6b: “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome (…) e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”.

            No conceito Platônico, há algo razoável, quando diz que ‘a transformação moral é necessária para que uma pessoa obtenha residência permanente nos mundos espirituais’ (Champlim). Quando o escritor aos Hebreus diz: “segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”, 12.14, parece-nos que é exatamente disso que está falando.

 Retomando o texto de 2 Co 3.18, podemos entender que Paulo está dizendo como acontece esse processo. Já o apostolo Pedro, entendendo que a missão de Cristo não se atem somente a esta esfera terrena, com precisa definição, concorda que Deus está operando nas pessoas uma transformação, tendo em vista que a morte biológica não põe fim no relacionamento entre Ele e os seres humanos, pois todos hão de prestar contas com aquele que é competente para julgar vivos e mortos: “… os quais hão de prestar contas àquele que é competente para julgar vivos e mortos; pois, para este fim, foi o evangelho pregado também a mortos, para que, mesmo julgados na carne segundo os homens, vivam no espírito segundo Deus”, 1 Pe 4.5,6.

ATAQUES AO CARÁTER

 

            Não podemos esquecer que existem ataques violentos ao nosso caráter como o ceticismo, o hedonismo, o materialismo e muitos outros ismos que surgem com o objetivo de transformar em ídolos o erro, o pecado e a busca pelas vantagens materiais. É aí que se conhece os de firmes e os de débeis caráter que se deixam ou não levar pelos ventos que surgem. Tanto os homens de caráter forte quanto os de caráter débil estão em todas as religiões e seguimentos da sociedade.

Para se conhecer os fortes é preciso observar neles o senso de mansidão que tem como fonte o Senhor que é manso e humilde de coração. Os fortes passam por lutas e provações porem conseguem firmar suas mentes em algum ideal, avançando sempre nessa direção. Já os de caráter malformado não conseguem vislumbrar missão alguma a cumprir. Isso, no entanto pode mudar com a ajuda do Senhor quando o indivíduo se aproxima dEle.

A FORMAÇÃO DO CARÁTER À LUZ DA BÍBLIA

            O obreiro precisa ter o cuidado para se comportar neste mundo de acordo com as Escrituras Sagradas, para que exerça com dignidade o Santo Ministério. Mostraremos alguns textos da Bíblia que devem nortear-nos neste particular.

Em Rm 7.15-25 o apostolo Paulo (santo homem de Deus), parece estar travando uma batalha por dentro que, por assim dizer, está presente em todo cristão: “Nem mesmo compreendo o meu modo de agir, pois não faço o que prefiro e sim o que detesto,” v.15.

É fato que, para se ter sucesso numa batalha é preciso conhecer de perto o inimigo: sua força, seus hábitos, suas técnicas e sua estratégia de ação.

            A Bíblia registra pelo menos cinco inimigos ferozes que nos cercam: 1. Satanás que comanda um reino espiritual contrário a Deus; 2. o pecado que vez por outra reina em nosso homem interior e leva o nosso corpo a práticas desagradáveis a Deus; 3. o mundo com o seu sistema opressor e ante Deus; 4. a carne, incitação íntima que trabalha diuturnamente; e 5. a morte que não podemos vencê-la neste corpo que é mortal e corruptível. Contra todos eles Deus tem solução a nos apresentar em Sua palavra:

1. Satanás. Na primeira carta de Pedro 5.8,9 se lê: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar”. O apostolo João nos mostra o caráter desse inimigo: “… Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira,” Jo 8.44. Já o apostolo Paulo em Ef 6.11-17 mostra a sua periculosidade: “… Reverti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo…” v.11. Porém, O Senhor, através do apostolo Tiago, nos dá a formula medicamentosa para vencê-lo: “Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós,” Tg 4.7. Paulo garante que podemos ter vitória sobre esse feroz inimigo, pois, ele já foi vencido por Cristo no ato da sua morte: “… despojando os principados e potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz,” Cl 2.15.

2. O pecado. O pecado é uma realidade inconteste: “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. (…) Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado (natureza pecaminosa) que habita em mim,” Rm 7.15,17. O antídoto contra o pecado é o sangue de Jesus vertido na cruz: “… e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado,” 1 Jo 1.7b. Ao salvo, o pecado não domina: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça,” Rm 6.14.

3. O mundo (sistema opressor e ante Deus). Ele jaz no maligno; ele é o seu deus. O apostolo João nos orienta: “Não ameis o mundo, nem as coisas que no mundo há. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém que faz a vontade de Deus permanece eternamente,” 1 Jo 2.15-17.

4. A carne (natureza pecaminosa, adâmica e terrena). Paulo orientou aos irmãos da Galácia e orienta a nós também, da seguinte forma: “Porque a carne milita contra o Espírito e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, por ventura seja do vosso querer. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei. (…) Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito,” Gl 5.17-25.

Note que são duas naturezas lutando entre si: a velha natureza (adâmica, terrena, carnal, humana) e a nova natureza que é divina, à qual recebemos com o novo nascimento. A velha natureza precisa ser colocada sob o domínio dO Senhor. A única forma de se colocar esta natureza sob o senhorio de Cristo é tomar a decisão própria de subjuga-la: “Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão,” 1 Co 9.27a. O Senhor muda a vida de cada um no ato da conversão quando acontece o processo de regeneração e consequentemente santificação, agora, a decisão de continuar transformado é do cristão. É de cada um a tarefa de mortificar a natureza terrena: “fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena…” (Cl 3.5). Já para participar da natureza divina, é necessário estar ‘em Cristo’ – dentro dEle: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; es que se fizeram novas,” 2 Co 5.17.

Retomando o texto de Rm 7. 15-25, se percebe duas leis antagônicas: a lei do pecado que se manifesta no agir dos membros e a lei da mente que é a lei de Deus dada por Moisés. Por isso dois mundos (carnal x espiritual); dois polos (cruz e trono); uma militância, necessária para vitória.

            Concordando com o ensino paulino, o apostolo Pedro mostra um caminho sobremodo excelente para que se vença a luta entre essas duas naturezas, inclusive no âmbito ministerial: “… nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo …,” 2 Pe 1.3-11, como sendo:

a. Deus coloca tudo à nossa disposição para uma vida de santidade: Suas ricas promessas, a coparticipação da natureza divina e o livramento de envolvimentos com o sistema corrupto e com as paixões mundanas, v. 4; 

b. Deus exige da nossa parte um crescimento progressivo: sendo diligente, o obreiro de Deus conseguirá:  associar à fé a virtude, à virtude o conhecimento, ao conhecimento o domínio próprio, ao domínio próprio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade a fraternidade, à fraternidade o amor, vv. 5-7; 

c. Deus nos adverte quanto à Inatividade e Esterilidade espiritual: se não tivermos fé para um crescimento espiritual e ministerial, estamos militando contra a nossa vocação e eleição: nossa fé está morta, nosso conhecimento está infrutífero, nossa visão está cega, esquecemos que um dia fomos purificados dos nossos pecados e, consequentemente, comprometeremos a nossa entrada no reino eterno daquele que nos chamou, vv. 8-11.

            Dá para se perceber que nessa batalha, tem a parte humana e a divina: na parte humana, o cristão precisa reconhecer que não pode sozinho (Rm 7.24): “Quem me livrará do corpo desta morte?” e precisa confiar em todos os direitos que há em Cristo (Rm 8.1); na parte divina, tem a vitória garantida em Cristo (Rm 7.25a). Assim sendo, é preciso crer, obedecer e entregar-se para experimentar a vitória já conquistada por Jesus na cruz.

5. A morte. Esse é um inimigo a ser vencido; falar sobre ele não é pertinente no momento. Até agora, somente Cristo o venceu, mas, em Cristo, cada salvo também o vencerá. Paulo orientou os irmãos de Corinto a se animarem quanto e essa batalha: “Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. (…) Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo,” 1 Co 15.53,54,57.

MEIOS DE DESENVOLVER O CARÁTER SEGUNDO CHAMPLIN

a. O treinamento da mente através das Escrituras Sagradas e bons livros, sejam eles religiosos ou seculares, que conferem ao homem o senso do que é superior e melhor e que podem treinar sua mente para as coisas mais nobres;

b. A vida de oração que não seja só o pedir a Deus, mas, O agradecer, O louvar e prestar-lhe culto, pois, a oração transforma as pessoas e altera o rumo dos acontecimentos;

c. A meditação que consiste em estar com o espírito sintonizado com Deus;

d. A santificação que nos conduz a Deus, Hb 12.14. não pode haver futura glorificação sem a presente santificação;

e. A prática da lei do amor que é qualidade espiritual por excelência, em torno da qual, todas as demais qualidades espirituais se desenvolvem, Gl 5.22,23. Nesta prática também entra a lei da mutualidade: uns aos outros. O apostolo João coloca como prova e essência da espiritualidade, 1 Jo 4.7ss, e;

f. Ter um ideal para seguir, uma missão para realizar, uma tarefa a cumprir com todas as forças e zelo do nosso espírito. Isso serve de poderoso edificador do caráter, pois, todos esses meios desenvolvem em nós o caráter e a espiritualidade, razões pelas quais estamos vivos neste mundo.

FORTALECENDO A CREDIBILIDADE PASTORAL

Tudo começa no coração (alma). Jeremias informa que o coração é enganoso e desesperadamente corrupto e só Deus o conhece. Deus quer que o obreiro seja moldado e santificado completamente: espírito, alma e corpo. Ele está sempre pronto para mudar àquele que se dobra ao Seu senhorio, e também para conservar essa mudança em cada um. Mas, para isso, é necessário confiar em Deus e entregue-se completamente a Ele, com disposição dócil para ser trabalhado. O Senhor quer continuar usando a sua vida poderosamente em Suas mãos.

Cabe ao obreiro entender que está inserido no Reino e trabalhando pelo Reino, porém, não deve permitir que as muitas tarefas lhe façam perder a visão do triunfo no Reino: “Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” (2 Pedro 1.9-11).

Pr. Daniel Matos Chaves  – Pastor Auxiliar da IADESL. 1º Secretário da CEADEMA

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