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“É possível viver bem, apesar da crise”

“Conversar sobre Política, Missões ou Atualidades com o pastor Walberto Magalhães Sales, líder da AD em Arari, é uma experiência rica para qualquer um, principalmente para estudantes e pesquisadores. Graduado em Letras e Teologia, especialista em Tecnologias Aplicadas à Educação e Educação à Distância, não fala sobre estes assuntos com palpites ou impressões, ele coloca suas ideias com embasamento e fundamentação sempre. Autor do livro SHABBAT (termo hebraico) e diversos artigos publicados, é mais que um escritor, é um grande empreendedor. Não se cansa de investir em seu ministério, parece que tudo o que faz tem a função de fazê-lo crescer. Aos 42 anos de idade e uma carreira ministerial promissora iniciada aos 22, foi convidado pelo Presidente da CEADEMA, Pr. Pedro Aldi Damasceno, para elaborar uma proposta de um Projeto Político-Social exclusivamente para CEADEMA. Nesta entrevista fala sobre a atual crise política brasileira,  do papel e da responsabilidade da igreja nesse contexto e, claro, da proposta do Projeto Político para as Assembleias de Deus no Maranhão,  entre outros assuntos. Confira!

CEADEMA EM FOCO – Estamos vivendo um tempo de instabilidade política como nunca antes. Como deve ser para o cristão conviver com esta realidade?

  1. WALBERTO MAGALHÃES

Normal, oportuno e perigoso. Normal, porque é uma realidade humana que pesa sobre todos: cristãos ou não, e neste caso, o cristão deve se sentir moralmente responsável por todos, pois suas decisões, inclusive a de se omitir tem consequências sobre todos; é oportuno, porque como igreja somos coluna e firmeza da verdade, tendo a missão de oferecer ao mundo o exemplo de equidade e correção para que este possa se reorientar, percebendo que é possível viver bem ao lado de Cristo em qualquer época ou circunstância (o tão negligenciado testemunho cristão); perigoso, porque se o cristão for pós modernamente cristão, em vez de um cristão absolutamente resolvido pelos sólidos fundamento bíblicos, ele será apenas mais um sem saber realmente o que é a verdade e o que ele mesmo quer. Quanto a ideia de instabilidade política, consideremos o seguinte: a política possui leis eternas que a possibilita permanecer sempre estável. A instabilidade já ocorre no nível das consequências políticas. A título de ilustração, pensemos no sinal analógico de TV, ele está lá fora com todas as suas características, e representa a política em potência. Dentro de casa está a TV, que representa as famílias humanas com suas necessidades. Entre a TV e o sinal ficam: a antena, que representa o sistema de governo e o instalador, que é o político profissional. Se a TV apresentará imagens quase imperceptíveis e som ruidoso, será consequências da antena e/ou do instalador. E o que isso tem a ver com a pergunta? Ninguém precisa entrar em desespero pensando que a política faliu e agora o mundo vai se acabar. Não, vamos mudar a regulagem da nossa antena, se necessário mudar de instalador e em extremo mudar a antena.

Há esperança para o Brasil? Qual a solução para a atual crise?

A Rachel Sheherazade disse que o Brasil tem cura. Eu também acredito. O aspecto econômico da crise já vai passar, o mundo precisa do Brasil tanto como produtor como consumidor, a economia mundial só nos deu uma sova, como reprimenda por nossos maus feitos. Quanto ao que nos levou para a crise e pode nos levar outra fez é a corrupção, que é a fase evoluída do jeitinho brasileiro, esta deve ser combatida veementemente, da família ao Estado; da creche a universidade; desde a infância até a velhice; do cidadão a nação, sem esquecer da igreja.

E em relação à liderança evangélica, vivemos uma crise de integridade?

Assustadora! Houve uma época em que o pastor era considerado um homem perfeito. Isto era errado, mas impunha uma cobrança sobre os pastores e aspirantes de que fossem exemplares. Agora, com concepção correta de que o pastor é um homem comum, somada a tolerância pós-moderna, não há mais cobrança nenhuma, qualquer um pode se auto intitular pastor e até os pastores de verdades relaxam quando ao modo digno de viver; relaxam também quando ao exercício da piedade: oração, leitura da santa palavra e as boas obras de efésios 6.10; caindo nessa tentação continuam sendo pastores, mas esquecem de ser crentes e discípulos de Jesus. Sem falar nos que nunca foram. Todavia não é perca total, Deus tem as suas reservas: “os sete mil do Profeta Elias”.

Qual o papel ideal que a Igreja Evangélica deve exercer?

O de ser “Sal e Luz”. No exato sentido em que o mestre estabeleceu:“sal da terra e luz do mundo”, a Igreja está aqui com auxiliar competente do Deus Criador na tarefa de restaurar o homem caído. Ela não precisa da orientação de terceiros; nem de outra mensagem além do evangelho do Cristo; no entanto, precisa demonstrar a impetuosidade e o poder de quem é sal e luz. Os representantes do bem precisam ter, no mínimo, a mesma audácia que os corruptos brasileiros tiveram. Estes para enfermar o país, a Igreja Evangélica para curá-lo.

A nossa Assembleia de Deus no Maranhão (CEADEMA) praticou em termos de política partidária, durante décadas, um modelo que parece que deu poucos resultados, ou seja, quase não se canalizou ações para o social. Na prática, quem comandou o processo: a CEADEMA ou políticos eleitos pela igreja?

Quando ingressei na CEADEMA encontrei uma postura política de ter alguém que defendesse os nossos direitos, entendo que foi uma herança das primeiras orientações políticas movidas por uma necessidade específica, que foi a elaboração da constituinte de 1988. Desde então, permaneceu a participação da CEADEMA em campanhas eleitorais apenas em favor de um ou de outro candidato, sem muito comprometimento político; sem deixar claro seus interesses e sem ter uma ação política direcionada coerentemente. A ação mais clara de direcionamento político que tivemos foi no sentido de eleger candidatos, mas como seria depois? Não houve orientação por parte da CEADEMA. Aquela situação da máxima que diz: “para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve”. Entendo que não tivemos grandes prejuízos com isso, os políticos fizeram algumas poucas coisas, mas nossas expectativas não eram grandes e nossa organização política também não. Penso até,que não há políticos que honestamente consideram que foram eleitos pela igreja maranhense. Quanto a liderança destas atividades sempre tivemos os próprios políticos interessados intermediando os contatos e procedimentos juntos aos caciques políticos já constituídos e não vai ser fácil mudar. Quanto ao social, nós ainda não temos sistemicamente uma ação social funcionando. Portanto não temos como responsabilizar apenas os políticos vinculados, pela nossa quase inoperância social.

Por ocasião da última AGO, em Lago Pedra, o senhor recebeu a incumbência de elaborar e sistematizar, a partir de tudo que já foi debatido em plenário sobre o social, uma proposta de Projeto Político-Social da CEADEMA. O senhor já concluiu e quando vai ser apresentada ao plenário da Convenção? E a qual a necessidade disso?

Já apresentei uma proposta de projeto e creio que o Senhor Presidente fará as primeiras apreciações sobre ela durante a AGE no Tirirical, São Luís. Falo em proposta entendendo que só será o Projeto Político-Social da CEADEMA depois de apreciado e aprovado. Quanto a relevância é imprescindível, pois define o ponto de partida de uma atividade social consistente na área da educação, o que posteriormente pode ser ampliado; e, estabelece diretrizes para a escolha, preparação e eleição de candidatos com um perfil de missionário político, além de orientar o pós-eleição.

Em síntese, o que a proposta vai trazer?

Uma base teórica para a definição de conceitos políticos harmoniosos com a fé cristã e a natureza da CEADEMA, com orientação sobre a aplicação destes conceitos políticos na prática cotidiana da Instituição; uma abordagem sobre criação ou adoção de um Partido Político ligado a causa institucional; orientação sobre formação política aplicada aos membros das igrejas filiadas; e, além de disciplinar a escolha de líderes políticos para disputas de pleitos eleitorais e respectivos mandatos, estabelece os vínculos do exercício de mandatos com a ação social praticada pela Instituição. Em um dos anexos traz uma proposta de estatuto para a fundação da CEADEMA.

Qual a expectativa sobre o avanço dessa proposta?

Imagino que é maior por parte dos pretensos candidatos e pela presidência da CEADEMA, mas ainda não sei avaliar.

Qual sua expectativa, a partir de agora, com a confirmação e implantação de um projeto político da CEADEMA?

Tentei me conservar o mais neutro possível em todos os sentidos para a criação da proposta e ainda me conservo assim, talvez porque ela ainda não foi aprovada, e posso ser solicitado a fazer alterações. Por isso me limito a informar que estou entusiasmado com a ideia.

Quais dos temas mais lhe atrai, mais lhe dar prazer: Política ou Missões?

Todas as coisas desta vida estão interligadas no homem, como todos os valores eternos se irradiam do Cristo. Nós neste momento estamos falando de missionários políticos e de política para fins sociais, mas separado os conceitos para mim, missões ganha de dez a zero a política.

O que diria a quem se diz convicto de sua chamada missionária, mas que não foi ainda absorvido por uma agência missionária ou mesmo por uma secretaria de Missões de uma igreja?

Continue se preparando, se o SENHOR lhe deu um chamado e ainda não o convocou para a fronte de batalha é porque você ainda não está pronto, por mais que penses que esteja.Nada de culpar os outros: igrejas e pastores. Afinal,se quem te deu o chamado foi Deus a hora vai chegar.

Em sua opinião, qual é o futuro da religião no mundo? Que tipo de problemas a Pós-modernidade traz para a Igreja?

Comecei a ler um livro sobre uma Teologia Planetária, a perspectiva de que as religiões se fundirão involuntariamente e no futuro próximo haverá uma base comum sólida e fundamental em todas as religiões existentes. Mas evangélico que se presa não se deixa levar por uma idéia dessa. O mundo será mais ou menos evangélico ou muçulmano se nós formos mais ou menos atuantes que eles, esse é o fato. Quanto aos problemas da pós-modernidade eu diria “trouxe”, não há mais nada novo que a filosofia deste momento sócio-político-ideológico possa trazer, aparte de pequenos fenômenos isolados, nós já conhecemos esse momento da história dos homens, que chegou no Brasil de forma tardia e deve ter morte prematura, pois já sofre de exaustão, claro que o seu legado bom e ruim vai permanecer por muitos séculos, mas um novo pensamento não demora a começar se estabelecer. Pois a tendência mundial é para um novo tipo de nacionalismo e revalorização da soberania das nações e este fato nos leva a negação das idéias atuais, isto não é difícil de entender, basta perceber que a Europa vai ter que se reinventar se quiser permanecer unida, os EUA já estão iniciando uma nova postura de valorização local em detrimento do global, no Brasil só superaremos a crise política quando novos conceitos forem estabelecidos. E para não esticar muito, só mais um indicador: até o carnaval brasileiro alcançou o estupor de nudismo e nesse ano diminuiu drasticamente as mulheres nuas na avenida.

Quem é a pessoa Walberto Magalhães Sales?

Um indivíduo da espécie humana, filho, marido, pai, avô, cristão, evangélico, pentecostal… Um ser em construção.

O senhor já se sentiu arrogante alguma vez?

Essa é uma pegadinha (risos). Se disser não. Serei acusado da arrogância de não admitir que já fui arrogante. Se não negar. Serei um arrogante confesso.Todos os meus grandes amigos me dizem que quando me viram e observaram-me nas primeiras vezes pensaram que eu era brabo, petulante e outras coisas parecida, mas eles dizem também, que depois que me conheceram descobriram que eu não sou assim, talvez seja porque se tornaram meus amigos, então me deram um desconto.

O senhor já se sentiu demasiadamente justo em relação ao outro?

Não. O que mais me incomoda é abuso de autoridade, ou a suposta sabedoria que produz soberba. Eu não perdoaria isso nem em mim mesmo. Me esforço para ser justo como a Bíblia ordena, mas respeito o limite de não ser demasiadamente justo que ela estabelece. E meu conceito de correção tem sempre uma relação com a vontade de Deus para mim e nunca uma competição com o semelhante.

Fale um pouco da honra em exercer o ministério pastoral?

O ministério é para quem foi chamado. “Embora uma vaga vocação para o ministério cristão possa levar ao pastorado, não sustentará o pastor através das ásperas realidades da vida na igreja”. O pastor não pode explicar, mas deve ter absoluta consciência de que foi chamado. Se o leitor é pastor e não sabe do que estou falando, então desista. O ministério não é profissão, não é arte, muito menos bico. Deus me fez pastor, mais do que isso, Deus me fez para ser pastor. Não posso me imaginar fazendo outra coisa. Não é que simplesmente eu não queira ou não tenha outra oportunidade, é que ser pastor é o projeto de Deus para mim. O SENHOR me chamou, pôs um fogo no meu coração, o chamado interior como fez com Jeremias, que disse: “Se eu disser: Não farei menção dele, e não falarei mais no seu nome, então há no meu coração um como fogo ardente, encerrado nos meus ossos, e estou fatigado de contê-lo, e não posso mais”. Jr 20.9. A igreja reconheceu o dom de Deus sobre a minha vida e chamou-me para pastoreá-la, este é o aspecto exterior do chamado, e eu, disse “eis-me aqui”. Não há mais retorno: se eu não souber me portar e não obedecer a Deus e por isso me frustrar, serei um pastor frustrado; se eu pecar e cair, serei um pastor caído; e se eu lutando morrer, serei um pastor morto; mas permanecendo de pé serei impulsionado e controlado por Deus através da vocação do chamado. E, o que eu fiz para merecer? Nada. Desfruto do privilégio de ter sido chamado, por isso tenho a responsabilidade de viver de modo digno da vocação.

Qual é o perfil real do “pastor de ovelhas”, que traços lhe são indispensáveis?

Se as ovelhas são as do SENHOR, então a virtude suficiente é a de ser um discípulo de Cristo. A base para a formação do bom ministro é o discipulado de Cristo, que nos leva a compreender o Reino de Deus com seus mistérios preciosos, a ponto de nos gloriarmos na cruz de Cristo e nos seus sofrimentos compartilhados por amor da Igreja. Como diz Paulo: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja; da qual eu estou feito ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir a palavra de Deus”.(Cl 1.24,25).Quando isto não acontece, e o ministro não compreende os valores do Reino, ele tenderá a infidelidade mesmo que com zelo pessoal. Poderá empregar esforços e conseguir avultados resultados, contudo, sem atingir o padrão.Sofremos muito hoje de uma hipocrisia disfarçada de maturidade. Declaramos conhecer, mas não obedecemos; declaramos crer, mas vivemos diferentemente da nossa declaração. Queremos ser discípulos sem a disciplina; queremos a salvação sem a cruz; queremos a autoridade sem a obediência; dizemos que somos cidadãos do céu, mas tudo em nós aspira terra; dizemos que somos diferentes, mas fazemos tudo igual. Para ser diferente é preciso pensar e proceder diferente. Para ser poderoso em Cristo é preciso ser discípulo disciplinado e obediente, obediência que testemunha do amor. Para não ser hipócrita é preciso crer e viver ao máximo da possibilidade o que se prega. Menos que isso, por mais virtudes que tenha alguém, ele está desqualificado para apascentar as ovelhas do SENHOR.

Qual o seu sonho de consumo?

Gasto parte significativa do que ganho com missões e livros, e penso que vou continuar fazendo isso. Mas gostaria de fazer mais: queria manter um centro excelência de formação teológica e missionária para treinar obreiros para a seara do mestre no modelo de internato e enviar trabalhadores aos quatro “quantos” da terra.

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