Um chamado para a diferença

Um chamado para a diferença

Um passo foi dado. Na II AGO da CEADEMA, em junho, na cidade de Viana, foi aprovada a proposta da criação de uma fundação para Ceadema e da elaboração de um projeto social, na verdade um plano de intenções para as Assembleias de Deus no Maranhão, que inclui a construção de um hospital. Para tanto, foi constituída uma comissão, cujos integrantes são obreiros com formações e experiências em várias áreas do conhecimento. Esta é uma frente de atividade. A outra é o projeto da CGADB da criação de um partido político, como ferramenta importante para elegermos representantes comprometidos com o projeto social que está sendo elaborado.

A nossa denominação no Maranhão é um império em construções de megas-templos. É uma potência em concentrações  evangelísticas. No mês passado aconteceu em os todos finais de semana. FOIMAC (em Raposa, mais de 10 mil pessoas), IMPACTO (Cohatrac, São Luís, mais de 10 mil), Chapadinha para Cristo (Chapadinha, 30 mil pessoas), entre outras…

Mas somente isto. Nos outros estados do Brasil, a Assembleia e Deus tem tudo isto e muito mais, ou seja, tem ação evangelística e assistência social à altura. É o caso do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pernambuco. Mencionei estes três estados pelo fato de serem exemplo no tocante à pregação do evangelho completo.

Tenho uma certeza. A de que precisamos avançar. A de que temos um chamado para fazer a diferença.

A missão integral da igreja consiste em apresentar o evangelho em sua plenitude, sua mensagem chega à totalidade do homem: espírito, alma e corpo. Podemos chamar de missão integral a preocupação com a salvação humana sem negligenciar o cuidado ou atendimento das privações materiais básicas daqueles que são comprovadamente carentes: escola, creche, clínicas, asilos, orfanatos, alimentação, vestuário etc. Todas estas ações fazem parte do evangelho e não podem ser escanteadas. Todavia, reconhecemos que a pregação do evangelho para a salvação do pecador vem em primeiro lugar.

Jesus, o nosso maior referencial, nunca fez vistas grossas às necessidades daqueles que o rodeavam. Ele saciava tanto a fome espiritual quanto a física, ouvia os problemas das pessoas e não se preocupou com o título que lhe deram de amigo de publicanos e pecadores. Possuía uma visão ampla (diferente da visão míope da maioria dos líderes contemporâneos) e via os homens não apenas como seres espirituais, mas como seres multifacetados constituídos de emoções, intelecto, moral, religiosidade, matéria etc. Sendo assim, procurava alcançá-los de maneira plena e equilibrada.

Esta visão de Jesus foi transmitida aos apóstolos de maneira que na igreja do primeiro século não havia disparidades sociais. Todos tinham tudo em comum e nada lhes faltava (Atos 4: 32-35). O apóstolo Paulo tinha um carinho todo especial com os pobres (Gálatas 2:10). Foi ele que fez uma coleta entre as igrejas gentílicas para os santos pobres em Jerusalém, e a entregou mesmo colocando sua própria vida em perigo (Atos 21:17-36; 24:17). Isto era um sinal visível da unidade interior e essencial do cristianismo primitivo. Além disso, os alvos das doações eram variados:

A comunidade cristã enfatizava o apoio às suas viúvas, órfãos, enfermos, deficientes e àqueles que, por causa da fé, perderam seus empregos ou foram encarcerados. Também resgatava homens forçados a trabalho servil em conseqüência da fé e hospedava viajantes. Uma igreja enviava ajuda para outra igreja cujos membros passavam por crise ou perseguição. Na teoria, e não foi diferente na prática, a comunidade cristã era uma irmandade unida pelo amor, na qual o auxílio material recíproco era a lei.

No entanto, na medida em que o tempo foi passando o amor ao próximo foi se arrefecendo. Em nossos dias esse amor serve como tema de pregações e está na boca de diversas pessoas, mas são pouquíssimos os que o vivenciam na prática. A grande maioria das igrejas (sobretudo as neopentecostais) estão preocupadas em como arrecadar mais e mais, querem construir belos templos, alcançar a fama, conquistar espaço na mídia e atrair multidões com um evangelho sem responsabilidades, conteúdo e focado apenas no aqui e agora. Neste contexto as palavras do apóstolo Paulo cairiam bem: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Corintios 15:19; ARA). Numerosa parte da liderança cristã do nosso país vive com muito conforto, em total comodismo, passividade e omissão à realidade dos necessitados. Seus templos estão localizados nas grandes cidades em locais estratégicos, propiciando assim uma boa visibilidade.

Gostaria de terminar citando Dr. W. A. Visser em uma declaração de nossa dupla responsabilidade cristã, social e evangelística:

“Eu creio que com respeito à grande tensão entre a interpretação vertical do Evangelho, como essencialmente preocupada com o ato da salvação de Deus na vida dos indivíduos e a interpretação horizontal disto, como principalmente com as relações humanas no mundo, devo fugir daquele movimento oscilatório mais do que primitivo de ir de um extremo para outro.”

“Um cristianismo que tem perdido sua dimensão horizontal, tem perdido seu sal e é, não somente insípido em si mesmo, mas sem qualquer valor para o mundo. Mas um cristianismo que usaria a preocupação vertical como um meio para escapar de sua responsabilidade pela vida comum do homem é uma negação do amor de Deus pelo mundo, manifestado em Cristo. Deve se tornar claro que membros de igreja, que de fato negam suas responsabilidades com o necessitado, em qualquer parte do mundo, são tão culpados de heresia quanto todos os que negam este ou aquele artigo de fé”.

 

Pr. Gildenemyr L. Sousa
Secretário Executivo da CEADEMA

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